ENTREVISTA COM A FABIANA MORAES

Entrevista concedida à mestranda em Comunicação da Universidade Federal de Ouro Preto, Amanda de Paula Almeida e com orientação de Marta Maia. Realizada em 17 de novembro de 2025 por via remota.

Amanda Almeida (AA): Queria começar falando sobre O nascimento de Joicy por dois motivos. Um é até pessoal: foi o primeiro livro seu, o primeiro material que tive acesso, ainda no terceiro período da graduação. Eu já estava me questionando sobre a escolha do jornalismo e lembro que, quando li O nascimento de Joicy, muita coisa me atravessou.

Mesmo que, na época, eu nem sonhasse em pesquisar testemunho ou experiência, essas questões reverberaram bastante, inclusive nas discussões em sala. Esse convívio tão prolongado com a fonte, a relação com consensos e dissensos entre vocês. O segundo motivo é que esse material foi o primeiro da decisão, entre mim e Marta, de trabalhar com você. Partimos dele.

No capítulo em que você aprofunda sua relação com Joicy, você chama de “o convívio com o corpo sofrido e revolucionário”. Isso dialoga diretamente com a nossa dissertação, quando tratamos da vulnerabilidade política dos corpos. Fazemos uma relação entre esses dois materiais porque há a vulnerabilidade do corpo – no momento em que estamos vivos, somos vulneráveis – mas também o movimento político de vulnerabilização de certos corpos em detrimentos dos outros.

Percebemos que a sua relação com Joicy atravessa isso. Percebemos que essa relação é marcada por momentos de consenso e dissenso. Em alguns momentos, você interfere, no sentido de cuidado e orientação, de quem está olhando de fora, até tentando suavizar um pouco da realidade dura de Joicy. Em outros, você também acaba sendo alvo de momentos de personalidade intensa e arredia dela.

Você inicia esse capítulo com uma frase dita por Joicy ao telefone: “Inclusive tem gente dizendo que você vem ficando com todo o dinheiro que deveria me dar”.

A partir desses pontos, surgem algumas questões específicas sobre O nascimento de Joicy. Partimos muito da compreensão da reportagem a partir do signo da relação. Essa experiência vívida entre você e a fonte também é parte do próprio material e produz sentido compartilhado.

Gostaríamos de saber como você percebeu, quando percebeu e como assimilou esse entendimento de que o encontro entre você e Joicy também era uma história e precisava ser contada. Quando isso se tornou palpável para você.

Fabiana Moraes (FM): Eu acho que o principal motivo de querer escrever tem a ver com a necessidade de processar o próprio encontro e, ao mesmo tempo – sem estar aí separado – o próprio jornalismo. A própria prática e a própria teoria: o que é o aprendizado do jornalismo, o que a gente entende como aproximações, limites, barreiras. E, ao mesmo tempo, refletir sobre o que esse encontro tinha, o que ele significava.

Também atrelado a tudo isso, como eram os exercícios de representação jornalística a respeito de vidas como a da Joicy. Então, essas questões estão todas dentro da mesma gaveta, do mesmo invólucro. Tudo isso está sendo pensado no momento em que eu escrevo sobre a Joicy.

Eu sempre digo que boa parte das reportagens que escrevi são análises também do jornalismo. São análises da representação no jornalismo e do nosso papel, da nossa metodologia – da academia e das redações ao mesmo tempo. Eu não gosto de pensar que o jornalismo é uma coisa só da academia ou da redação. Jornalismo é também um fenômeno social.

AA: O você disse sobre a experiência, de falar sobre o próprio jornalismo, é um ponto de partida da nossa pesquisa. Usamos isso mais na teoria, dialogando com a Cremilda Medina, nesse sentido de que a revisitação do nosso trabalho acrescenta muito ao próprio jornalismo. Quando a gente revisita o que fez, está falando da experiência do jornalismo. É interessante perceber que isso faz parte do seu processo de escrita.

Seguindo na ideia de que a experiência agrega ao jornalismo, costumamos pensar, no senso comum, que o consenso agrega mais. Mas percebe-se que o dissenso também traz muitas coisas.

Uso como exemplo dois momentos. Um é quando você interfere na relação de Joicy com Dornelles, ao sugerir que ela guardasse um pouco de dinheiro, já que vinha dando dinheiro a ele, sobretudo depois da cirurgia. O outro é a relação com a mãe, quando Joicy se mostra mais arredia e rejeita a aproximação materna, o que te causa incompreensão, já que você percebia alguém que desejava muito esse afeto, mas que não conseguia acolhê-lo.

Como essas situações, especialmente os momentos de discordância entre vocês, afetaram suas decisões narrativas e éticas? E como esses momentos de consenso e, principalmente, de dissenso ajudam a compreender um jornalismo com outros caracteres: estético, artístico, afetivo e posicionado?

FM: Eu acho que tem uma coisa: o jornalismo, muitas vezes, em suas semelhanças com a literatura, lida também com uma construção de arquétipos, não é? E nessa construção você tem esses lugares dos heróis, dos bandidos, essa coisa do vilão, da mocinha.

Me parece também que, durante um tempo – e logo quando essa ideia do “jornalismo humanizado” aparece -, houve uma produção muito grande de textos, documentários, enfim, de representações jornalísticas muito relacionadas a quase um… como posso dizer… um elogio ao sofrimento, digamos assim. E eu nunca me interessei por isso; acho que é uma armadilha e frequentemente incorre em muitos estereótipos.

Então, eu não queria que as pessoas vissem a Joicy também, pensando no meu olhar, como uma coitada, uma vítima. Mas me interessava – se estou falando de dimensões humanas – também abordar essa pessoa que tem quinas, que tem arestas, como qualquer outra.

Era o fato da Joicy ser uma pessoa que estava nesse lugar, que já é o lugar do sofrimento, ela ser uma “coitada”. Mas ela também ter as questões dela, os limites, as vontades. E acho que isso a torna ainda mais humana. Então, o dissenso me interessa nesse sentido, porque obviamente todos nós somos criaturas formadas também pelo dissenso – principalmente porque a vida é relacional, não é? Quando estamos em sociedade convivendo com os outros, isso vai aparecer.

E eu acho que, de certa maneira, muitas vezes o jornalismo apaga esse dissenso justamente porque ele atrapalha a criação desses arquétipos. Ou você apaga, ou o sublinha demais para que também tenha um vilão perfeito, digamos assim. E não era essa a minha intenção ali. Eu passei muito tempo com uma pessoa, compreendendo muitas limitações – minhas, dela, e de pessoas que cercavam a gente naquele momento. E acho que, até objetivamente, se eu quisesse escrever melhor, de uma perspectiva objetiva, essas questões tinham que estar no papel.

AA: Diferentemente das reportagens reunidas em A pauta é uma arma de combate, que são mais recentes, O nascimento de Joicy foi escrito em 2011 e publicado em livro em 2015. Já se passaram muitos anos desde essa revisitação.

Hoje, com mais de dez anos de distância, com o aprofundamento da sua carreira acadêmica e o acúmulo de experiências profissionais e pessoais, como você enxerga essa reportagem? E quais seriam, hoje, os limites entre repórter e personagem?

FM: Eu acho que ainda não parei para pensar nisso dez anos depois, sabe? Se esses limites seriam os mesmos ou se, na verdade, esses limites estão muito claros. Eu acho que eles não estão nem claros no livro, sabe?

Porque, primeiro, eu acho que eles se reconfiguram. Não vou nem dizer que é a cada período, década ou ano; acho que eles se reconfiguram a cada encontro, sabe? Os encontros são muito determinantes também desses limites.

Por isso, acho que não é possível estabelecer algo de uma ordem absolutamente técnica. Embora eu também ache que, tecnicamente, temos algumas premissas que são interessantes. E, nesse sentido, acho que eu voltaria a elas hoje.

Por exemplo, nesse início de capítulo que você citou, acho que aquele foi um limite muito claro para mim: uma quebra de confiança. É uma questão de quebra de confiança muito grande, que para mim foi aquele limite. E depois, nem mesmo quando ela volta a me escrever, eu deixei isso de lado e voltei a ter contato novamente – mas foi porque eu já não estava mais no contexto da escrita. Então, precisei me afastar naquele momento para restabelecer uma relação.

Por isso também acho que é isso: esses limites são meio plásticos, se moldando muito de acordo com esses encontros. Mas eu entendo que, por exemplo, sem uma confiança mútua – mesmo que seja momentânea – é impossível você continuar especificamente a relação. Não estou dizendo que a pessoa não vai escrever desconfiando, que esse texto nasça assim, mas a relação em si e a continuidade da apuração através dessa fonte primordial, aí eu acho que ela se esgarça completamente se não há confiança.

AA: Agora caminhando mais para A pauta é uma arma de combate, queria falar das reportagens reunidas ali. Um movimento que me chama muita atenção é o uso de recursos visuais e narrativos mais artísticos e poéticos, algo que já aparece em O nascimento de Joicy, como na capa que remete à obra de Botticelli O Nascimento de Vênus. No livro, você comenta que o jornalismo precisa aprender mais com essas práticas criativas, uma liberdade que a fotografia e o design encontram com mais facilidade do que o texto. Queria que você comentasse um pouco sobre essa intuição como jornalista, a percepção de que a arte pode reencontrar o jornalismo.

Pensando especificamente em Ave Maria, você utiliza um recurso religioso forte, colocando lado a lado santas católicas e mulheres assassinadas por feminicídio, em sua maioria negras e pobres. Como foi possível construir isso dentro de um jornal hegemônico e tradicional? Como se deu esse processo coletivo de elaboração e convencimento?

FM: Sim. Primeiro, acho que você falou do design da fotografia, mas eu acho que o texto também é esse lugar da elaboração artística. Nas reportagens que estão nesse livro – acho que A Vida é Nelson, com um recorte dramatúrgico ali, ou com texto misturado com processos policiais investigativos -, nessas mesclas, a elaboração de pedaços narrados, do uso de travessão, de vozes… Eu acho que o texto também é esse lugar dessa elaboração artística.

E aí eu acredito que, assim, o jornalismo vai ser justamente esse lugar no qual há essa maravilhosa possibilidade de você juntar esses recursos, que são recursos do criativo, que são recursos do real e do ficcional. É a elaboração de como falar sobre o mundo, do que dizer sobre o mundo e o que eu vou escolher para falar sobre o mundo. O design, a fotografia, o texto, o documentário, as imagens – enfim, não só imagens estáticas, mas imagens em movimento também, as redes sociais… Existe a forma de você elaborar isso nas plataformas de uma maneira artística.

Então, essa coisa de separar – “isso aqui é jornalismo e é texto, isso aqui é arte” – para mim sempre foi muito esquisita, porque enquanto eu elaborava, enquanto eu fazia o jornalismo, eu estava em contato com a criação também. E assim, como é que eu vou falar? Como é que eu vou contar esses feminicídios, já pegando Ave Maria? Eu posso contar isso a partir da elaboração de pensar que, conceitualmente, a gente tem uma fé e um respeito feitos por imagens entendidas como sagradas. Temos feriados, festas, promessas, igrejas, uma cultura construída em relação a essas Marias. E, ao mesmo tempo, elas são assassinadas diariamente nas ruas do Brasil, nas casas, no campo, nas cidades.

Então, a forma – e acho que não tinha como ninguém fazer questionamentos a respeito dessa escolha de imagens – era que os nomes das mulheres eram os nomes das santas católicas. Como tinha essa premissa, havia uma estrutura já criada, um gancho que estava amarrado com essa questão das imagens. Porque, pensando justamente nelas, eu não queria colocar as imagens de mulheres assassinadas. Isso para mim era importante.

Acho que também, naquele momento, a gente estava vivendo o recrudescimento dos evangélicos no Brasil – foi o primeiro boom em 2010; a reportagem é de 2013, “Ave Maria”. E uma das entrevistadas, uma pessoa que não aparece, é aquela que não quis ficar com a santa, como eu conto: a santa foi para a vizinha, porque ela tinha virado evangélica. Ela também tinha uma relação muito difícil com a mãe, então não queria essa lembrança, essa memória da mãe; a santa representaria isso.

Mas eu acho que talvez hoje as imagens fossem mais questionadas por algum grupo do que naquele momento. Você não tinha, por exemplo, a questão dos evangélicos, a força dos evangélicos também está muito relacionada, contemporaneamente e mais recentemente, com a ascensão da extrema-direita no Brasil – não que eu esteja dizendo que todos os evangélicos sejam de extrema-direita, mas há essa correlação, o bolsonarismo, tudo isso. Então eu acho que isso daria uma outra camada, que naquele momento não existia ainda. Talvez estivesse em formação, mas acho que hoje a recepção poderia ser diferente.

 AA: Acho bom que falou da questão da entrega das santas, porque a próxima pergunta está muito relacionada a isso também. Porque você fez perfil de mulheres, só que essas mulheres não estavam mais aqui, então há a aproximação com essas famílias que já estão marcadas também pelo trauma, estão em luto. E aí, lendo a reportagem, tenho a impressão – e também pelos seus comentários – que o gesto das mães segurando as santas, da entrega das santas (mesmo que, acho, isso aconteça depois da entrevista), é uma extensão bem simbólica dessa relação de cuidado e espiritualidade que você tem com o tratamento da memória dessas vítimas. A escolha de não usar fotos delas violentadas, machucadas, e poucas fotos delas em geral. Então, queria que você falasse um pouco sobre essa aproximação com a família e desse gesto da fotografia das mães segurando as santas, não necessariamente só das mães, mas das famílias.

FM: Essa questão do trauma foi uma coisa que eu pensei muito, sabe, Amanda? Essa reportagem deixou isso muito claro para mim, como nessa outra camada tão delicada e pouco simples. É que, ao mesmo tempo em que muitas vezes você está procurando um retrato mais humanizado, você também está reelaborando um trauma.

Isso para mim foi uma questão durante essa reportagem especificamente, porque todas essas mulheres tinham sido assassinadas há mais de um, dois anos – acho que uma delas fazia cinco anos, não me recordo bem agora -, mas não eram assassinatos recentes. E até para me apresentar, dizer o que eu estava falando… “Olha, eu vim falar sobre…” Era muito difícil. Então, eu sempre deixei muito claro que ninguém precisava falar comigo.

Nessas viagens, eu dizia: “Se você não quiser conversar, você não precisa”. E isso me faz pensar… Não sei se estatisticamente estaria correto falar esse número, mas vou dar um chute aqui: acho que, de 100% das pessoas que eu já me aproximei para falar – não de uma maneira apressada, mas para dizer “Olha, eu sei que aconteceu isso e queria lhe ouvir” -, era muito raro que as pessoas não quisessem falar.

Porque acho que, de maneira geral, as pessoas se ressentem de uma escuta demorada, digamos assim. Não estou falando que isso é uma coisa que acontece só comigo; acho que acontece com qualquer jornalista ou pesquisadora que senta e vai ouvir. As pessoas sabem que, mesmo que não seja extremamente elaborado, a escuta tem uma dimensão… ser escutado tem uma dimensão de cidadania. Você sabe que está num lugar mais humano, mais cidadão, mais gente, onde você importa. E aí, eu acho que isso é… Eu até queria ler e escrever mais sobre isso, porque é uma questão muito humana, mas que também tem uma relação muito forte com classes. Tenho a impressão de que isso perpassa bem as dimensões de classe.

Eu me lembro que, quando fazia outra reportagem que está nesse livro – Casa-grande e Senzala -, uma delas, acho que era a Patrícia, me disse: “Por que é que você perde tanto tempo com a gente? Por que é que você fica aqui querendo conversar faz tanto tempo? Tipo, por que é que você já não foi embora? Por que é que você volta e fica mais uma hora, às vezes a gente marca e não vem e você espera…” Ela não compreendia bem por que elas importavam, porque estavam sendo ouvidas. Elas estranharam.

E eu nunca esqueci isso, esse estranhamento pela atenção. Então, acho que tem um pouco disso também. Muitas vezes, uma relação que vai ser positiva, no sentido das pessoas se abrirem, tem essa dimensão: “Eu estou sendo ouvida”.

AA: Essa resposta abarcou muito, porque eu ia entrar em Casa-grande e Senzala também e ia bem nessa ordem. Mas antes de entrar, de uma maneira geral, em todas as quatro reportagens que a gente vai falar, para quem lê pelo menos, sente-se uma carga emocional muito grande, porque são temas muito sensíveis: Ave Maria tem a questão do feminicídio; Casa-grande e Senzala é uma das mais difíceis para mim, porque mexe com criança, com adolescente. E aí você acabou de falar que a Patrícia te perguntou por que você ficava voltando, e é isso: claro que você está lá para contar uma história, é muito da profissão, mas você está lá também ocupando esses espaços.

E aí, para nossa pesquisa, o seu testemunho também é muito importante. Então, fico muito curiosa para saber como você consegue – e se consegue – não dar umas “surtadas” às vezes, porque imagino que seja uma exaustão emocional também, lidar com histórias tão complicadas e também perceber que o jornalismo, apesar de ter um papel social, tem seus limites.

Esses momentos de interação para você, de ver, no caso de Casa-grande e Senzala, essas meninas nessas situações de abuso, inclusive policial, mas também em A Vida é Nelson, que traz histórias terríveis, igual da Severina… Como você lida com esses momentos internamente?

FM: No caso de Casa-grande e Senzala, como tem esses elementos que você citou – uma pessoa grávida, um bebê, tentativas de estupro policial -, talvez, junto com a história da Severina, tenha sido das vezes que eu vi pessoas sendo mais maltratadas, tratadas como se fossem lixo.

Como as meninas falam lá: “jogar lixo na minha casa”. Ela fazia parte do lixo. Então, ali, me lembro que eu procurava traçar muitas vezes uma linha, de chegar em casa e tentar deixar um pouco, até para conseguir me relacionar bem com meu filho, que tinha sete, oito anos.

Tinha aquela coisa de ficar um zunindo na cabeça, uma coisa ali. O cheiro, para mim, sempre foi uma coisa que entranha no meu nariz. Muitas vezes eu ficava cercada por ele; me lembro até hoje do esgoto na casa da Joicy. E ali, também do Casa-grande e Senzala, daquele lugar com muito lixo, esgoto, dejeto.

Acho que não seria legal eu dizer que não parava de pensar naquilo – obviamente conseguia -, mas, ao mesmo tempo, principalmente quando se faz reportagens de longa duração, você volta naquela coisa, participa ainda que durante um certo momento do cotidiano, vai se misturando ali. E isso, obviamente, vai causar impacto tanto aqui quanto lá. Eu acho que talvez eu tenha aprendido ali a conseguir conviver e deixar mais embaixo muitas questões da própria moralidade, digamos.

Mas talvez eu até falei sobre isso em Casa-grande e Senzala. Dar dinheiro para uma grávida comprar cigarro, ou dar dinheiro para o crack, ou olhar a Joicy dar dinheiro para o cara que eu sabia que não estava lá sendo legal com ela… Como é que a gente vive com essas questões? Quando digo que são de ordem moral, é porque confrontavam o meu próprio suposto.

Então, às vezes as coisas mais difíceis eram conseguir lidar com isso, deixar isso embaixo – não para não interferir, mas porque eu sabia que aquilo não ia ser legal para ela, para a Patrícia ou para a própria Carol. Era difícil, porque ao mesmo tempo eu sabia que tinha um bebê ali, uma criança. Talvez eu não conte isso na reportagem, mas eu disse para ela: “Não, vamos fazer um trato: eu compro um milho, uma comida para você, você come e depois…[referindo-se ao vício em cigarros e crack da jovem grávida]”.

Porque eu também não podia fingir que não tinha responsabilidade, mas se não tenho, também não vou dar dinheiro. É meio que… É muito difícil. Você tem uma construção de vida inteira e, às vezes, tem que resolver isso naquele momento, naquela relação.

Às vezes as pessoas dizem: “Ah, você interferiu, não sei o quê”. Gente, não é isso. Você interfere e depois olha e diz: “É, eu não faria hoje”. Mas é isso, essas coisas são “no quente”, às vezes. Você não tem um manualzinho de como lidar com uma mãe de 19 anos que foi abusada desde os 10 e está grávida, me pedindo dinheiro. Eu tentaria me guiar pela coisa mais cuidadosa daquele momento que eu conseguisse fazer, não para mim, mas para a outra pessoa. Mas às vezes é isso, não tem um roteiro pré-definido. Por isso falo que os limites se dão nos encontros também.

AA: Você reúne todas essas quatro reportagens no formato livro, e aí a gente sente que isso altera o tempo do jornalismo, porque aquilo que era uma reportagem de instante ganha uma permanência maior. O que essa transposição das matérias do jornal impresso para o livro revela sobre a perenidade dessas narrativas, mas também o que elas trazem para você sobre as possibilidades do jornalismo de se tornar memória, especialmente dentro do suporte livro?

E também um pouco sobre a inclusão, porque nesses dois materiais, quando retornam, a gente tem também inclusão um pouco mais sobre o seu processo, sua experiência, seu testemunho. E como isso reconfigura para você a relação entre o repórter, a fonte e o leitor.

FM: Eu acho que todos esses personagens – repórter, leitor, autor – ganham esse caráter… não quero dizer histórico, porque o jornal também é, obviamente. Mas a gente tem ali uma mídia com um caráter de perenidade maior, que é o livro. Principalmente se você pensa no grande não investimento de muitos jornais em relação ao próprio material.

O Jornal do Commercio agora é que começou a fazer a digitalização do seu acervo junto com a Fundação Joaquim Nabuco aqui em Recife. Estou felicíssima que está acontecendo. Mas, por exemplo, nenhuma das especiais que eu fiz está no ar como site. Nenhuma. E acho que isso, do ponto de vista de pensar como esse jornalismo – que se dizia que tinha ido muito bem para o digital – não foi.

A gente não tem acesso a muita coisa, na verdade. E isso diz muito sobre a mentalidade do jornalismo nacional nesse sentido. E aí, por conta disso, fico bem feliz de ter conseguido colocar – vamos dizer que tem outras reportagens que quero levar para livro até por isso – porque muita gente me escreve dizendo: “Ah, eu queria ver tal reportagem”. Eu peguei um monte de PDF e coloquei num site, no Academia, que é uma forma dessas reportagens não sumirem.

É engraçado porque, às vezes, eu acho que os repórteres e editores valorizam mais o aspecto artístico, comercial, de pensar no público, do que os próprios meios, os próprios donos, porque eu não queria que essas histórias sumissem. Eu não queria que a Joicy sumisse ou que reportagens de colegas meus que eu queria acessar hoje tivessem sumido porque foram engolidas pela incompetência – acho que é incompetência mesmo.

E acho que o livro – eu também publiquei Os Sertões e Nabuco em Pretos e Brancos – faz com que essas histórias, essas personagens e essas questões, que são questões da história brasileira (do racismo, do classismo, da falta de políticas públicas, das reconfigurações da sociedade), não fiquem esquecidas.

O jornalismo é importante demais para ficar num banco de dados guardado em algum lugar. Então, no que eu puder colocar essas reportagens e outras em circulação, seja em PDF ou nesses livros, elas são extremamente importantes. Valorizo demais essas histórias. E acho muito interessante ver, por exemplo, você acessar essa reportagem.

Você pega um momento de rede social no qual já não se sabe… a questão da transgeneridade, tem gente que faz: “Mas por que você escreveu ‘transexual’? É ‘transgênero'”. Nessa disputa de palavras… E era um outro momento, uma outra fotografia. Acho isso sensacional, de acompanhar. E se não fossem os livros, essas relações estariam muito mais baixas.

AA: E aí volto à Casa-grande Senzala, porque tem um momento que acontece especificamente com você, que é a entrevista com o secretário de segurança pública, acho que o Wilson Damásio. E aí é um momento horrível, mas que diz muito sobre o que estava acontecendo ali, um conto atravessado por misoginia. Ao ler esse trecho, fiquei pensando muito como você, que já era uma jornalista experiente num jornal conhecido, e aí essa entrevista se transforma nesse momento atravessado por muitas violências, inclusive contra você, que é colocada sob suspeita, houve comentários misóginos durante uma entrevista que trata sobre violências contra adolescentes e jovens.

Queria refletir com você o que isso traz sobre as suas próprias vulnerabilidades políticas, por ser uma mulher – você fala um pouco disso, que não carregava o ethos masculino da Marcia Veiga, e por isso talvez tudo isso tenha acontecido. E sinto isso também, como jornalista mulher, a gente está sempre mais vulnerável a alguns comentários, a ter que ouvir algumas coisas, a ser tratada de um jeito, a ser desconfiada.

Gostaria que falasse um pouco disso, e também como essas experiências – quando são com você, mas são testemunhadas, enfrentadas e colocadas nesses momentos de revisitação – revelam sobre o que o jornalismo é capaz de tensionar.

FM: Eu acho que, em determinados momentos como esse, nesse tipo de situação muito delicada na qual você está se relacionando com o poder mais materializado, de certa maneira – não é que eu me divirta, a palavra não é essa -, mas acho curioso e interessante como o fato de ser uma mulher e não estar carregada com esse ethos fazia com que aquela pessoa, ao mesmo tempo, se abrisse um pouco mais, ficasse à vontade.

Não precisava performar tanto, uma vez que, como eu não carregava esse ethos, eu seria inofensiva. Essa ideia de inofensivo. Então, isso para mim é muito engraçado. Eu, talvez por uma coisa da aproximação com a sociologia, gostava que, ao mesmo tempo que estava ali fazendo a reportagem, fazendo a entrevista, eu também estava analisando aquela relação, pensando: “O que é isso aqui?”.

Então, me via quase me olhando cientificamente, como se pudesse me desprender um pouco de mim mesma e olhar a cena de fora e pensar: como é que ele está me olhando? O que em mim faz com que essa pessoa ache que eu seja inofensiva? Porque estou com um brinco de pérolas rosa? Porque meu vestido tem um babado? Porque não fico fazendo cara de julgamento? Porque minha voz é essa voz, pergunto educadamente? Não sei. Mas é isso, é possível nesse sentido quase me olhar de fora e ver aquilo tudo como teatros, com os personagens.

Naquela sala, uma entrevista séria com o secretário, com o ouvidor, a jornalista fazendo perguntas e aquela pessoa que não consegue aguentar. E por que ela não consegue? Já tinha acontecido coisas parecidas com repórteres homens? Claro que sim, não com a mesma temática, mas… O que eu fiquei pensando – e aí que eu sigo, que toda reportagem para mim também é uma análise do jornalismo – era: os homens que cobriam polícia, ao contrário de mim, não deixavam muita coisa de fora, talvez por causa da relação com a fonte. Mas acho que esse tipo de situação se repetiu, com mais ou menos gravidade.

Esse foi um dos momentos mais delicados, não que a entrevista tenha sido super tensa, mas esses momentos foram desenhando muito qual era o tipo de expectativa que se tem em relação a uma mulher. E aí você vai tirando aquelas bonequinhas russas: a mulher, a mulher jornalista, a mulher jornalista que cobre futuro, a mulher jornalista que é uma mulher preta… Você vai, porque é isso. Quando estou entrevistando as meninas na Mangabeira, na área do pontilhão (estou falando de “Casa Grande Senzala”), eram meninas adolescentes e jovens que eram tecnicamente minhas vizinhas, vizinhas do meu pai, que mora até hoje no José Bonifácio.

Eu tinha muitas parecenças com elas e, ao mesmo tempo, eram mundos completamente diferentes. Eu não enfrentei de forma alguma o tipo de violência que elas enfrentaram, nem perto. E, ao mesmo tempo, como é que essas pessoas localizadas em grupos de poder – financeiro, político -, Recife sendo uma cidade muito racista… Como é que essas pessoas olhavam? Inicialmente, as pessoas meio que estranham. E eu sabia que isso podia acontecer. Então, ao mesmo tempo, quando falo que me vejo de fora e quase vejo como um teatro, eu sabia – e, obviamente, você sabe disso também como jornalista – que a gente assume um papel nesses momentos.

Eu estava muito certa do meu papel, sabia que estava operando dentro dele, mas conseguia me olhar fora dele, dizendo: “Você está fazendo assim, você está fazendo assim porque precisa dessa informação, você precisa disso, você vai ficar desse jeito”. Porque, obviamente, a gente precisa tratar de maneiras específicas as fontes. Damásio e Joicy são fontes de mundos completamente diferentes, com assessorias diferentes, então eu sabia disso também. Acho que essas questões de classe, raça e gênero estavam presentes nesse sentido: eu consegui olhá-las de fora e ver como estavam operando.

AA: Em A vida é Nelson você consegue “brincar” mais com a criatividade e liberdade do texto, até mesmo pelo próprio objetivo da reportagem que estava alinhada com 100 anos do Nelson Rodrigues e contar essas histórias que de tão absurdas parecem até ficção, ao mesmo tempo que a uma denúncia constante de muitas violências e violações. Como foi encontrar esse equilíbrio entre a criatividade narrativa e a responsabilidade jornalística de contar essas histórias tão complicadas, como a de Severina?

FM: Não acredito que exista uma separação ou distinção entre responsabilidade jornalística e a criação – o desenvolvimento de um texto, um filme, um documentário que tenha esse aspecto mais criativo, digamos, mais exposto. Porque, de certa maneira, toda elaboração jornalística faz parte de um processo criativo também. Algumas mais evidentes, outras menos, mas não acho que haja uma divisão.

Entre o fato de, por exemplo, eu conseguir escrever uma reportagem e ali criar, inventar – usando essa palavra – como narrar a vida de Nelson Rodrigues, por exemplo, de uma forma dramatúrgica, que use recursos da dramaturgia… Essa escrita está completamente amparada pelos dados do real, por uma pesquisa jornalística de fato. Então, para mim, não é uma questão de distinguir esses dois lugares, porque entendo que eles são parte de uma mesma elaboração.

AA: Você navega por essas histórias que acionam questões e embates sobre essa relação repórter-fonte que é por vezes permeada por desconforto, é desigual, desconfiada ou até mesmo violenta. Como você decide o que fazer com esses episódios? Eles devem ser incorporados à narrativa – como parte da experiência – ou há situações em que o silêncio também é uma forma de ética? Em outras palavras: todo dissenso acrescenta algo à prática jornalística?

FM: De forma direta, não. Não acho que todo dissenso ou todo consenso vá interessar automaticamente. O que tem peso na elaboração da narrativa jornalística é o porquê de algo estar presente. Por que estou trazendo um dissenso para o que estou escrevendo? Isso importa. O que ele reverbera?

A narrativa jornalística é feita de escolhas – ou seja, é também um processo de exclusão. Então, preciso pensar no que estou trazendo para dentro e, ao mesmo tempo, no que estou deixando de fora.

Esse dissenso importa? Na maioria das vezes, os dissensos trazem questões relacionadas a desigualdades: de lugares, de gênero, de classe, ou várias outras. Muitas vezes, eles interessam justamente por isso – porque conseguem expor situações que nem sempre estão devidamente visíveis.

Então, acho que se eles estão presentes para redesenhar algo muito estabelecido socialmente – algo que não é generoso com pessoas e grupos -, isso pode ser interessante. Mas é isso: ele tem que reverberar um sentido para ser exposto e trazido à tona.

AA: Diante de tudo isso – das relações, da experiência, do dissenso, da arte como linguagem e da vulnerabilidade como força -, para onde devemos pensar o jornalismo hoje? E para você, no seu trabalho, o que permanece vivo nesse ofício depois de tantas experiências, revisitações e enfrentamentos? E o que você deixa para trás de cada uma dessas reportagens?

FM: Acho que a sociedade que se percebe como moderna – essa sociedade liberal, capitalista, pós-industrial, com vários termos que usamos principalmente a partir dos anos 50 do século passado, nesses ambientes que se entendem como globais -, nela, a experiência do jornalismo é ainda mais necessária. Não só no sentido de elaborar, mas de comunicar, tanto no nível local quanto global. Que experiências são essas que nos atravessam? Que experiências dessa dita modernidade são tão presentes, e como é que elas são reelaboradas, como nos moldam?

Entendo que o jornalismo é um bem muito precioso nesse contexto, uma vez que ele consegue fazer frente justamente a esses discursos universalizantes. Para muita gente, esse momento de globalização e de uma suposta abertura, de certa maneira, quase nos uniria. E eu entendo que o jornalismo vai justamente ser esse meio que consegue falar a partir, muitas vezes, desses locais e mostrar essas experiências – como elas são elaboradas dentro desse caldeirão cultural cheio também de distinções entre práticas, entre pes

Então, entendo que o jornalismo tem essa força – e essa força, por mais que seja questionada, é o que muitas vezes usamos como bússola.

E acho que há… estou pensando aqui, elaborando, Amanda, desculpa. Mas você tem outra pergunta dentro da pergunta que deixa para trás: o que é que eu deixo para trás? Não saberia te responder isso. Acho que, na verdade, a cada reportagem, muitas vezes consigo elaborar melhor essa camada de algo que trago comigo. Não é o que deixo, mas o que acabo edificando a mais – no sentido de mais um tijolo, mais um cimento, mais uma semente, mais uma árvore, seja qual figura de linguagem a gente use.

Não sei o que deixo para trás, mas sempre acho que consegui ali olhar mais de perto. E para mim, olhar mais de perto significa também conseguir enxergar melhor a coisa como um todo, até onde isso é possível.

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